A EPIDEMIA TECH HOUSE ESTÁ DE VOLTA, MAS SERÁ QUE PODEMOS ESPERAR ALGUMA NOVIDADE NO GÊNERO?

Quando o Tech House surgiu, por volta de 1994 em Londres, foi muito bem recebido pela cena eletrônica pois combinava os melhores elementos do House e do Techno. As pessoas estavam um pouco entediadas com a House Music, sedentas por elementos mais marcantes, talvez com um pouco mais de obscuridade. E foi aí que o casamento com o Techno foi sacramentado.

O Tech House originalmente continha uma linha de baixo robusta e as batidas curtas, mais rápidas e metalizadas dos hi-hats bem marcados, recebendo como complemento, não menos importante, a harmonia e grooves da House Music. Era fruto de uma produção limpa e minimalista, associada ao Techno de Detroit e Reino Unido. Na época, artistas como Charles Webster, Bushwacka,  Funk D’Void, Derrick Carter e Stacey Pullen iniciavam o movimento “Tech” em clubs como The End, que no Reino Unido era considerada a casa do Tech House.

Nos anos 2000 o estilo se espalhou pela Europa através da adesão de artistas como Carl Cox e Joris Voorn, tornando-se assim muito popular na cena underground. Mas como nem tudo são flores, em algum momento o gênero deixou de se reinventar, passando a ser produzido em série. Sempre com a mesma “receita de bolo”, caiu no “buraco negro”, no qual praticamente todos os sons da moda caem: o da mesmice. Faixas com uma linha de baixo de duas notas, loops de cymbals  extremamente barulhentos, e shots de vocais ininteligíveis. A maioria dos produtores apenas segue a “boiada”, com medo de inovar, e acabam tornando o gênero repetitivo, desinteressante e genérico. Tracks que serão esquecidas em cinco minutos, e talvez seja por esse motivo que poucos conseguem produzir as chamadas clássicas, as eternas que sempre serão atuais como “Body Language”- M.A.N.D.Y & Booka Shade (2006). Qualquer pessoa que acompanha os massivos lançamentos de Tech House nas plataformas de música, percebe a proliferação do gênero, com tracks clássicas das raves reembaladas, nossos antigos hinos transformados em bastardos mutantes. Não que isso já não tenha acontecido com outros estilos anteriormente…

Obviamente ainda podemos encontrar pérolas nesse marzão de reinterpretações medíocres e das fórmulas insistentes. Aqueles artistas que produzem um Tech House de respeito, tracks ousadas, com aquela linha de baixo rugindo e rasgando groove. Mas, os desse tipo, são totalmente engolidos e ofuscados pela massa dos produtores em série. E os DJ’s tem grande participação nisso tudo: existem os que usam o belo Tech House como uma ferramenta, aqueles que selecionam suas tracks pela construção, pela surpresa que cada uma delas apresenta no decorrer da história que está contando. Existem os que usam como muleta, selecionando os bootlegs de músicas consagradas, forçadas a se enquadrarem no gênero. Djs que constroem sets sem brilho, se mantendo sempre na confortável zona da cena mainstream. E são esses que inflamam o mercado do “Tech” sem irreverência, sem criatividade, sem expectativa.

Hoje podemos dizer que o Tech House está ressurgindo das cinzas como uma fênix (estou um pouco dramática nessa frase..rs), o que não é ruim, particularmente eu sempre fui grande fã do gênero.  O groove incansável, a mistura dinâmica entre o House e o Techno quando bem feita, mostrando os melhores elementos das duas vertentes, é capaz de levar as pistas a dançar como se não houvesse amanhã. Quem nunca presenciou uma pista dessas ao som de Tech House?! No Brasil, principalmente, já estava mais do que na hora de um novo gênero (re)tomar as rédeas. Quem ainda não está farto desse eletrônico pop com vocais que mais parecem sertanejo eletrônico, tocando incessantemente nas rádios mais populares, dia e noite? A verdade é que nem precisamos de bons DJs nas baladas, se ligarmos o rádio provavelmente o público nem percebe a diferença.

Fica aberta aqui a questão: será que a nova “safra” desafiará a mesmice, honrando a velha e boa robustez e alma do original Tech House, levando-o à frente com elegância inovadora?

Quem serão os novos pioneiros, aqueles que renunciarão ao estereotipado, criando tracks atemporais clássicas?…

Resolvi escrever sobre isso ao ler hoje uma matéria falando sobre um lançamento do David Guetta & Tom Staar – This Ain’t Techno, uma track que mistura “Big Room”ao Tech House!! Tá aí um cara que sempre se reinventa, David Guetta, que merece todo nosso respeito. Não que essa track represente exatamente o que eu falei até aqui, mas vale a menção quando o assunto é criatividade.

Pra finalizar, sempre é bom ressaltar, que a House Music e o Techno, são as raízes de tudo que floresce na música eletrônica. Todos os diferentes gêneros que temos hoje são a nova geração do House e do Techno, que juntos, influenciam o nascimento de tantos subgêneros. Com a evolução da tecnologia, produzir música se tornou possível pra muito mais gente hoje do que há alguns anos. Agora qualquer um pode criar música e tocar com o click de um botão, mas isso deveria ser o motor impulsionador da criatividade. O Tech House terminou 2018 grande, entrando com os dois pés no ano atual, e eu mal posso esperar pra descobrir que caminho trilhará, que tendências ditará. Enquanto isso, na sala de justiça, nós continuamos aguardando as cenas dos próximos capítulos…

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